LUANDA – O xadrez político para a sucessão na liderança do MPLA sofreu uma reviravolta inesperada. Sinais recentes indicam que o Serviço de Inteligência e Segurança do Estado (SINSE) estará a testar a aceitação pública de Manuel Domingos Vicente, antigo Vice-Presidente da República, como possível sucessor de João Lourenço.
O Vácuo Deixado por “Nandó”
A movimentação ganha força após a morte súbita de Fernando da Piedade Dias dos Santos (Nandó), que era visto como uma figura de consenso para a transição. Com o seu desaparecimento físico, alas influentes do regime terão reativado o nome de Manuel Vicente, considerado por setores internos como um “Plano B” capaz de garantir a continuidade e o controlo do aparelho de Estado.
Estratégia de Comunicação e o “Balão de Ensaio”
A tese do regresso ganhou visibilidade através de portais associados aos serviços de inteligência, como o Correio da Kianda, que publicou recentemente que Vicente “volta a ser apontado como hipótese”. No meio político, a publicação é interpretada como uma manobra deliberada para medir a temperatura da opinião pública e a resistência dentro das estruturas do partido.
Fontes próximas ao processo indicam que a figura do antigo presidente da Sonangol é impulsionada por dois grupos principais:
- Tecnocratas do MPLA: Que buscam um perfil com experiência de gestão.
- Lobby Petrolífero: Setor onde Vicente ainda mantém forte influência e contactos internacionais.
O Obstáculo Judicial e a Percepção de Impunidade
O eventual regresso de Manuel Vicente é, contudo, marcado por uma pesada carga judicial. Alvo de processos por suspeitas de corrupção e branqueamento de capitais, o ex-dirigente reside no exterior desde 2018.
Embora as suas imunidades tenham expirado em setembro de 2022, a justiça angolana tem demonstrado dificuldades em avançar. Em fevereiro de 2025, o Procurador-Geral da República, Hélder Pitta Grós, admitiu que o Estado continua dependente da cooperação internacional para recolher provas, o que reforça, junto da sociedade civil, a perceção de uma “impunidade seletiva” para figuras do núcleo duro do regime.
O Cenário para 2026
Enquanto o debate sobre Vicente aquece os bastidores, o cenário mais provável aponta para que João Lourenço se recandidate à liderança do MPLA para manter as rédeas da transição. A estratégia passaria por escolher um cabeça-de-lista para as eleições gerais que não possua ambições de liderança partidária, separando o destino do país da disputa interna do partido.
O ressurgimento do nome de Manuel Vicente revela que, apesar do discurso de renovação, o MPLA continua a debater-se com figuras do passado para resolver os dilemas do seu futuro político.