Eis a pergunta penetrante que requer uma resposta sólida: Luanda precisa de um metro de superfície? A resposta simples e óbvia é sim. Luanda tem necessidade de um metro de superfície, e aqui estão algumas das inúmeras razões para a satisfação das necessidades humanas, entre outras.
Por um lado, o metro de superfície de Luanda proporcionará o acesso a um sistema de transporte seguro, acessível, sustentável e a preços razoáveis para todos. Por outro lado, irá assegurar e garantir a expansão da rede de transportes públicos da cidade, promovendo uma maior mobilidade urbana.
Não é difícil perceber que o metro de superfície será vital para o alcance de vários Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) das Nações Unidas, refletidos na Agenda 2030, da qual a República de Angola é adepta fiel em termos de conceção e execução para garantir a sustentabilidade humana, ambiental, entre outras.
O destaque vai para o ODS número 11, que visa tornar as cidades e comunidades mais inclusivas, seguras, resilientes e sustentáveis. Os angolanos aspiram atingir estas métricas como uma aliança inquebrantável entre paz efetiva e desenvolvimento.
A consolidação e operacionalização do metro de superfície de Luanda permitirá o cumprimento do ODS número 9 — que trata da indústria, inovação e infraestruturas — fomentando tecnologias de transporte mais sustentáveis, fatores indispensáveis para o crescimento e desenvolvimento económico.
A saúde e o bem-estar da população também serão beneficiados com a concretização do ODS número 3. A mobilidade urbana tem um impacto significativo na saúde. Por outro lado, a poluição do ar causada pelo trânsito e o ruído do tráfego afetam negativamente a saúde pública. Ou seja, a falta de mobilidade urbana em Luanda constitui um problema de saúde pública.
Outra questão que exige uma resposta conclusiva é o investimento financeiro: a obra do metro de superfície está orçada em três mil milhões de dólares norte-americanos.
Neste aspeto, a consolidação do projeto é crucial. Importa considerar a visão geral da economia angolana com base nos dados mais atualizados relativos ao exercício financeiro de 2024.
Angola é uma economia de renda média dependente do petróleo, com pobreza generalizada, inflação crescente e depreciação da moeda (kwanza). No entanto, busca-se a diversificação da economia através da produção agrícola, embora ainda se registe um nível significativo de corrupção nas instituições públicas e privadas.
Há registo de investimentos em infraestruturas com a participação da República Popular da China e dos Estados Unidos da América.
A saída de Angola da OPEP, em 2023, pode representar vantagens na produção da sua principal matéria-prima de exportação, conferindo maior robustez às receitas nacionais.
A taxa atual de inflação em Angola é de 22%, com tendência de aumento devido à fraca produção interna, às elevadas importações e às poucas exportações, agravadas por fatores de declínio na economia internacional. Em termos comparativos, destacam-se as taxas de inflação de 21,4% em 2021, 13,6% em 2023 e 28,2% em 2024.
Se, por um lado, a inflação demonstra a necessidade de mais crescimento económico, deve-se considerar que esse crescimento depende, em grande medida, de investimentos em infra-estruturas. Tais investimentos devem acompanhar a dinâmica do desenvolvimento económico, e a mobilidade urbana é uma aposta que se deve privilegiar.
Como disse o Dr. António Agostinho Neto no seu discurso em Alvor, a 15 de janeiro de 1975: “A dinâmica da vida só nos pode conduzir a um destino: o destino do progresso.”
Este investimento na consolidação do metro de superfície de Luanda representa justamente esse caminho para o progresso. Apesar do ceticismo e do cinismo de alguns, trata-se de uma iniciativa necessária e estratégica.
A expectativa de vida em Angola é de 62 anos. Os angolanos precisam ultrapassar essa média para desfrutar de mais tempo de vida útil com saúde e bem-estar junto das suas famílias.
Em 2024, Angola arrecadou 37 mil milhões de dólares em exportações, com destaque para o petróleo e os diamantes. As importações totalizaram 23 mil milhões de dólares, e as reservas internacionais líquidas somaram 14 mil milhões.
Com base nestes dados, é sábio investir três mil milhões de dólares no início das obras do metro de superfície? A resposta é: sim, é um investimento sábio.
Vale ainda citar o relatório do Fundo Monetário Internacional (FMI) resultante da missão realizada entre os dias 6 e 12 de maio de 2025, no âmbito da avaliação pós-financiamento em Angola.
Segundo o FMI, “a economia de Angola experimentou uma recuperação robusta em 2024, impulsionada tanto pela produção de petróleo mais forte como pela retoma do setor não petrolífero. O crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) atingiu 4,4%, superando as projeções anteriores. Este investimento de três mil milhões de dólares para a construção do metro de superfície de Luanda terá retornos consideráveis.”
A verdade é irrefutável: Angola precisa de infraestruturas para impulsionar o seu crescimento económico, assegurar a mobilidade urbana, conectar regiões, acelerar a industrialização e, sobretudo, garantir progresso social, político, cultural e económico.
O metro de superfície de Luanda permitirá o transporte urbano eficiente de pessoas, bens e serviços. Após quase 50 anos de Independência, 23 anos de paz efetiva e 33 anos de democracia, não há outra alternativa para Angola e o seu povo senão o progresso em todas as dimensões.
Como qualquer projecto humano, este encontrará desafios e incertezas. Será necessário enfrentar obstáculos estruturais e conjunturais ao longo do caminho. Tais desafios, frequentemente fora do controlo direto do governo, como turbulências económicas globais, podem restringir o cumprimento de promessas.
Ainda assim, há garantias quanto à viabilidade da construção e do funcionamento pleno do metro de superfície de Luanda, que se tornará um ativo sustentável.
Em conclusão: o metro de superfície de Luanda representa um investimento estratégico sustentável diametralmente oposto ao declínio. É o preço justo e merecido que um povo que almeja o progresso económico, científico e tecnológico deve pagar.
Um povo que, após anos de sofrimento, precisa finalmente de sentir os efeitos da longevidade e do bem-estar, por ser de Angola e viver com Angola.
*Cientista político