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A dignidade negra não está em dívida com ninguém — João de Almeida

A dignidade negra não está em dívida com ninguém — João de Almeida

Posted on Junho 19, 2025

Durante o recente discurso nas comemorações do Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas, a escritora Lídia Jorge evocou um dado histórico: «No século XVII, dez por cento da população em Portugal era de origem africana».

A frase, à primeira vista apenas factual, provocou uma onda de aplausos — também em Angola — entre sectores que interpretaram a afirmação como sinal de coragem antirracista.

Mas é necessário olhar para além do gesto. A presença negra em Portugal não é um dado novo, tampouco marginal. Historiadores como Isabel Castro Henriques, Amador Vieira ou José Ramos Tinhorão vêm documentando há décadas a profunda ligação entre a história africana e a história portuguesa.

O bairro do Mocambo, em Lisboa, no século XVII, era conhecido como zona de forte presença africana. Muitos desses africanos eram escravizados; outros, libertos ou já nascidos livres em solo português, formavam comunidades com vida cultural própria.

Como escreve Amador Vieira em Lisboa Africana (1998): “A presença africana foi estruturante da cidade e da sociedade lisboeta, mesmo que o discurso oficial sempre a tenha secundarizado.” A invisibilização dessa herança não é acidental. Faz parte de um processo de branqueamento histórico e simbólico que, quando interrompido — como no caso da intervenção de Lídia Jorge — parece exigir reconhecimento exaltado. Como se estivesse a ser feito um favor.

É aqui que entra a crítica necessária. A expressão inglesa “Don’t patronize me”, que traduzimos como “não me trate com condescendência”, aplica-se ao modo como parte da sociedade encara o antirracismo vindo de pessoas brancas: com deslumbramento.

Quando figuras brancas expressam solidariedade, a reacção é, muitas vezes, de encantamento quase infantil. Como se a luta contra o racismo dependesse de uma súbita iluminação moral da branquitude. Isso é paternalismo.

Muitos amigos meus, bem-intencionados e formados, celebraram a frase de Lídia Jorge como se ela fosse uma revelação. Digo, sem hesitação: não preciso da condescendência de ninguém para existir com dignidade. A minha humanidade — e a de todos os negros — não depende da validação branca. Ela não é uma dádiva, é uma realidade.

O combate ao racismo não pode continuar a ser interpretado como um gesto de generosidade moral por parte dos brancos. Deve ser encarado como um dever ético, histórico e político de todos — mas com centralidade das vozes negras.

É aqui que entra o ponto fundamental: a luta antirracista não precisa de salvadores, precisa de reconhecimento estruturado e redistribuição de autoridade simbólica.

Recordo aos meus pares que a nossa emancipação continuará incompleta se a medirmos pelo grau de aceitação ou reconhecimento do outro. A voz negra tem de estar no centro do discurso, da liderança, da produção cultural e política.

A solidariedade branca pode ser útil, sim. Mas quando se transforma em protagonismo, desloca o foco daquilo que é essencial: a reparação, a equidade e a restituição da narrativa histórica.

Falo também a partir da minha experiência. Os que me conheceram nos tempos do Instituto Médio Alda Lara, e do chamado “Ciclo Novo”, sabem que fui alvo de bullying por causa da ascendência materna — o meu avô não era negro.

Cresci entre códigos ambíguos, entre pertenças que por vezes se anulavam mutuamente. E aprendi, desde cedo, que a dignidade não é algo que se mendiga; é algo que se afirma.

Por isso, o que aqui proponho não é o isolamento, nem a rejeição do diálogo entre grupos raciais. O que proponho é o fim da lógica de excepção que transforma a solidariedade branca em espectáculo. É urgente romper com essa teatralização da empatia que, no fundo, recentra o branco como herói de todas as causas.

A presença negra em Portugal é antiga, fundacional, profunda. O que falta não é reconhecimento — é reescrita do cânone, reposição da verdade histórica e descolonização da linguagem. Enquanto isso não acontecer, os aplausos a frases como a de Lídia Jorge continuarão a soar como palmas para um gesto que nunca devia ter sido excepcional.
A dignidade negra não está em dívida com ninguém.

Jornalista, consultor de comunicação estratégica e diplomata angolano

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