O presidente do Conselho de Executivo (PCE) do Banco de Desenvolvimento de Angola (BDA), João Salvador Quintas, protagonizou ontem, quarta-feira, 26, uma reestruturação abrupta ao exonerar toda a Direcção de Administração de Crédito, numa decisão que está a gerar fortes ondas de choque dentro da instituição.Textos relacionados:Máfia na concessão de créditos no Banco de Desenvolvimento de AngolaEmpresários revoltados com cancelamento do crédito do PAC pelo BDA
A Ordem de Serviço n.º 35/25 determinou a saída de José Igor Loureiro de Oliveira do cargo de director, bem como de Ana Maria Caetano da Silva Simões e Noélio Alexandre Severino Bemchimol das funções de subdirectores.Apesar de oficialmente apresentada como reorganização interna, fontes internas interpretam a medida como uma tentativa de “queima de arquivo humano” para salvar a imagem da Administração, após denúncias graves reveladas por este jornal envolvendo alegados esquemas de cobrança de comissões ilícitas.O escândaloO BDA, uma instituição pública criada pelo Decreto n.º 37/06 e actualmente presidida por Leonel Felisberto da Silva, enfrenta o mais sério abalo reputacional da última década, com alegações que apontam para práticas de corrupção activa no processo de concessão de crédito às empresas nacionais.Segundo informações recolhidas pelo Imparcial Press, o suposto esquema envolveria exigência de pagamentos entre 10% e 20% do valor do financiamento em troca da aprovação e desembolso de crédito. No centro das suspeitas surgem o PCE, João Salvador Quintas, e o até então director de Administração de Crédito, José Igor de Oliveira.Fontes garantem que a prática se tornou regra após a saída da ex-PCE Patrícia de Almeida, altura em que vários financiamentos previamente aprovados passaram a ser revistos ou bloqueados.“Nenhum crédito avançava sem a ‘garantia’ da comissão. Era pagar ou ver o processo arrastar-se por meses”, denuncia uma fonte que acompanhou os acontecimentos.Para além das alegadas comissões, os dois gestores são ainda apontados por suposta sobrefacturação de serviços contratados pelo banco, inflacionando valores que depois seriam repartidos entre intermediários.
Protecção política apurou que João Salvador Quintas mantém ligações próximas a figuras de peso na esfera económica do Executivo, nomeadamente ao ministro de Estado para a Coordenação Económica, José de Lima Massano, através do seu director de gabinete, Malamba Feitio.Essa proximidade, segundo fontes internas, tem funcionado como espécie de “escudo político”.Já José Igor de Oliveira é referido como genro do governador de Benguela, Manuel Nunes Júnior, antigo ministro de Estado para a Coordenação Económica, sendo descrito como um dos arquitectos do alegado esquema interno.Denúncias chegam ao BNA e à PGREmpresários alegadamente afectados pelas exigências ilícitas uniram-se para denunciar o caso. Um deles chegou a aceitar pagar a suposta comissão apenas para recolher provas entregues ao Banco Nacional de Angola (BNA), acompanhadas de documentos e testemunhos. O BNA terá encaminhado o processo ao BDA, que até agora não prestou esclarecimentos públicos. O silêncio da instituição está a alimentar críticas e a manchar esforços do Executivo na luta contra a corrupção, uma das principais bandeiras do Presidente João Lourenço.Fontes internas pedem uma intervenção urgente da Inspecção-Geral da Administração do Estado (IGAE) e a suspensão preventiva da direcção envolvida.“Se nada for feito, este caso vai arrastar consigo a credibilidade do banco e minar de vez a confiança dos empresários”, alertou uma fonte, concluindo que “há provas suficientes de práticas ilegais e de protecção política. A impunidade só reforça a percepção de que a corrupção continua intocável nos altos escalões.”