Num país onde milhões enfrentam fome e miséria, e onde a recente greve dos taxistas expôs a revolta de uma população cansada — com episódios de vandalismo e pilhagem a comércio como reflexo do desespero —, surge agora uma imagem que choca pela insensibilidade e ostentação.
Marcy Lopes, ministro da Justiça e dos Direitos Humanos, foi recentemente fotografado a exibir no pulso um relógio suíço da marca BOVET, avaliado em cerca de 74 mil dólares, equivalente a mais de 74 milhões de kwanzas, conforme o câmbio do dia.
Só para se ter uma ideia, este valor ultrapassa várias vezes o rendimento anual de um trabalhador médio angolano e representa o custo de alimentação de várias famílias durante anos.
A marca BOVET, fundada em 1822 por Edouard Bovet, é sinónimo de exclusividade extrema. O modelo que Marcy Lopes exibia poderá pertencer à linha Orbis Mundi, criada para celebrar os 200 anos da marca e inspirada nas viagens do fundador pelo mundo.
Uma ironia amarga para um país onde a maioria dos cidadãos nunca saiu da sua província e luta diariamente para sobreviver com menos de um dólar por dia.
De acordo com informações do mercado internacional, o relógio mais caro da BOVET — o Dimier Récital 3 Orbis Mundi 3WGCO Tourbillon em ouro branco 18k — chega a custar 217 mil dólares.
Não se sabe se o ministro Marcy Lopes possui mais peças desta marca, mas o simples facto de exibir um modelo de luxo de tal valor num contexto de crise social levanta questões sobre prioridades e ética na liderança.
Enquanto hospitais sofrem com a falta de medicamentos, escolas funcionam sem carteiras e centenas de crianças morrerem por causa da desnutrição, um dos principais rostos do aparelho do Estado desfila com um acessório que poderia mudar a vida de dezenas de famílias.
A imagem, amplamente partilhada nas redes sociais, tem gerado indignação e revolta. Muitos questionam como um governante, responsável por garantir os direitos humanos, pode ostentar tamanha riqueza num país onde esses mesmos direitos são diariamente negados e pela desigualdade extrema.